segunda-feira, 23 de abril de 2012


A virilidade do abraço

Arte de Gustav Klimt

Sem consultar nenhuma revista científica, posso dizer que a virilidade masculina não é o membro abaixo da cintura, o tamanho do documento, a forma física imposta por padrões de academia. O real vigor do homem, que não transparece pelo suor, mas pela delicadeza do rosto, são os dois braços ao lado do peito. É no abraço que o sexo verdadeiramente acontece.

Quantos casais viram para o lado e sequer tentam uma conversa rasteira após o sexo? Dormem como se o parceiro fosse uma fantasia que volta para o armário. Ou não elucidam sobre os lençóis consumidos pelo momento, sobre a beleza do gemido? Preocupam-se com a estética física, com o reflexo no espelho ou o cabelo desarrumado. Escondem o corpo nu como se um fosse ladrão do outro. Encostar o cansaço nem pensar. O abraço demorado, que sela a carnalização, acolhe a mulher na ilusão real e faz do homem o rei, sequer é cogitado. É preferível um cigarro entre os dedos a eternidade do corpo entre os braços.

Dividir a cama vai além da simples troca de lençóis, amassados pelo peso dos corpos entrelaçados que se tornam um. É necessário muito mais que bom desempenho para existir preenchimento. O ato em si é objeto descartável, luxo que compra companhia até a hora do café.

E o homem tende a se preocupar demais com o seu membro, sua atuação teatral, enquanto a mulher, em segundo plano e sozinha, sonha com um príncipe que jamais existirá, com uma delongada vida a dois. No sexo, ele um filme onde é necessário um Oscar de melhor ator; ela um momento de extrema intimidade, Cinderela que encontrou o sapato perdido e pode dançar a noite inteira.

Mas a sociedade descartável em que vivemos tem na sexo uma espécie de feira. Escolhida a fruta, parte-se para descascá-la, consumi-la, jogá-la fora. Em determinado momento, o que foi suco se transforma em bagaço. A mulher ou o homem, consumidos entre os dentes, passam de polpa a caroço, que deveria ser cultivado para gerar novos frutos, mas é desperdiçado por ser duro para os lábios. Não há espaço para beijo, cartas ou mordidas.

Se na conquista o homem parece superficial com cantadas compradas em liquidação, é na cama que ele deve se redimir e ser profundo como um grande filósofo.

Para isso, é necessário o abraço antes, durante e depois. Ele jamais precisará de viagra, não broxa; não precisa de enfeites, intuição, bula; não necessita de explicações, muito menos de competição entre amigos para saber qual é o maior. O abraço se explica por si só. É a segurança da mulher e o melhor desempenho do homem. A parte mais agradável do sexo é quando o homem detém a mulher em seus braços e a enlaça. Neste instante, toda a sua virilidade é posta à prova, poder de macho dominador que durará para sempre nas lembranças dela. O abraço deixa o cheiro de sabonete mais claro, a vida mais duradoura; mostra que o encontro não é apenas o egoísmo da noite: o dia também tem seu momento de nuvens.

É no abraço que o verdadeiro sexo acontece. As mãos validam muito mais o amor do que o cruzar das pernas ou a fumaça descartável de um cigarro insone.

quinta-feira, 22 de março de 2012

É no esmalte que a mulher se revela 


Arte de Renoir


É pelas unhas que a mulher mostra a sua alma. Os gestos das mãos representam mais do que os dos cabelos. Longe de ser apenas uma tela tingida, as unhas constituem um ato revolucionário que prolonga e liberta uma voz interior. Nas cores, essa voz define sua música, regida não apenas pela beleza estética, mas também pelo universo de possibilidades de expressão.

Minha mãe foi manicure para furtar o tempo perdido. Entre frascos de esmalte e algodões, buscava aquilo que meu pai espantou com sua macheza grega. Pintava as mãos das vizinhas no intuito de elevar e abolir a antiga condição de sexo frágil, sempre preso à sombra do homem; que ficava na gaiola do sofá aguardando as migalhas da noite. A mulher moderna é diferente, faz da própria sombra o guarda-sol do homem. Possui a segurança nos dedos. Emancipou-se com esmaltes e a acetonas, com uma vida plástica digna de grandes artistas modernos. O esmalte é o sangue seco que revela a atitude única de cada mulher.

A verdade contida nas cutículas é reveladora. As cores, a forma de utilizar as mãos – quase como um maestro que guia uma orquestra de clarins – são cartões de visita, diferente dos homens que gostam de roer desesperos. Eles tendem a utilizar as mãos como armadilha, elas como unção. O esmalte é a redenção capaz de acalmar os maiores pecadores.

O manual para entender essa forma de manifestação não é de fácil acesso. É preciso ser observador atento, marcar na folhinha os dias em que ela repinta seus dedos, quais cores utiliza e a intensidade do trato. Quanto mais cuidado houver, mais instigante e reveladora será. É como juntar um quebra- cabeças com peças infinitas e enigmáticas. A mulher precisa ser recolhida, peça por peça, e agrupada. Aquele que conseguir tal façanha será recompensado.

O dito máximo do velho Bukowski – de que deveríamos duvidar das pessoas que possuem a cozinha limpa – não se aplica para as mãos. Até mesmo roídas, pequenas, possuem o sinal dos dias ensolarados que podem anunciar a chuva.

E de unhas são feitos os gestos que só os envolvidos conseguirão entender. Vermelhas, por exemplo, demonstram uma mulher madura, consciente de si, que chega em casa, joga os sapatos para o alto e manda o marido lavar a louça, ápice do poder feminino. Sedutora. Já os tons escuros como o preto mostram uma feminista sóbria, forte nas atitudes e livre dos conceitos masculinos (até mesmo dos femininos). Dona de suas suposições, defende o seu estado de dominadora. Unhas mais claras, peroladas, são para dias mais leves, apaixonados e românticos. Mostram uma mulher que pensa por si só, mas deseja ser acompanhada no meio-fio. As várias opções mudam como os dias. Para o homem observador é uma mina de ouro.

As que não pintam as unhas, ou deixam que o esmalte falhe, também possuem sua leveza. Na clareza também mora a atitude, uma pose desbravadora, despojada, largada como uma adolescente que sabe tudo, mas finge não saber para ser guiada. Normalmente, a beleza ou simplicidade falam por elas. São mulheres que não necessitam de nenhuma rota para a viagem: possuem nos olhos as mais belas colinas. São doces na medida certa e revolucionárias nos seus anseios.

Se você é um homem observador está em vantagem. No esmalte se encontra a verdadeira opinião feminina. E, se deseja ouvir muito mais, é só escolher juntamente com ela a revolução do dia. Será muito mais dono de si, mais dono do mundo.

É nos passos da mulher que os homens fazem seus caminhos.  

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A extinção dos vendedores ambulantes

O Vendedor de Revistas – Arte de Angel Estevez


CRÔNICA PUBLICADA NA COLUNA MENSAL DO BLOG DA EDITORA ALTA BOOKS.
Link original http://blog.altabooks.com.br/?author=4


Hoje acordei um tanto saudoso, repleto de reminiscências. São tantas que nem conto, pois acrescentaria muitas páginas ao nosso dia e, sinceramente, pretendo não explodir em lamentos, coisa chata para quem os lê. Entretanto, como não sou de ferro – e o cara por trás do papel também precisa desabafar de vez em quando, o que faz do leitor uma espécie de psicólogo do cronista (agradeço antecipadamente o feito notável e gratuito, embora já tenha dito isso em outra crônica) – hoje estou para desabafos e um “lamentozinho” não faz nenhum mal.
Entre as recordações que tomam o dia, algumas fúteis, outras existenciais, figura uma que deve pairar sobre cabeça de muitos que, como eu, viveram nos áureos tempos dos algodões doce. Não sou tão velho assim, que fique claro, mas recordo dos simpáticos vendedores ambulantes de livros de antigamente. Muitos deles me acordavam pela manhã com suas palmas de papel amassadas e vinham com preciosidades e sorrisos. Sabiam de cor as obras, citavam com propriedade passagens e tinham promoções que nenhum shopping jamais apresentou. Eram verdadeiras bibliotecas ambulantes que não se importavam com as vendas, mas com a disseminação da literatura. Mostravam-se mais felizes com comentários acerca de algum romance do que quando retirávamos o dinheiro do bolso. Eram verdadeiros “pseudoescritores”, no bom sentido, que fomentavam a leitura mesmo quando o dia parecia terrível e você quase os retirassem a pontapés.
– Ah, mas esse aqui é ótimo. Chama-se Pollyanna, de Eleanor H. Porter, e fala sobre a felicidade mesmo quando ela parece ser difícil e…
Abríamos um grande sorriso, pois além de venderem, tinham o dom de transformarem a tristeza. Possuíam o livro ideal para cada situação.
Mas isso foi no tempo do Chevette, das coisas que não voltam mais. De lá para cá nunca mais recebi um vendedor de livros em minha casa para amansar os tempos, o que me leva a crer que foram extintos pela modernidade ou pelos grandes centros comerciais. Ou quem sabe estão escondidos e diminuíram a caminhada. Uma pena. Deveriam ser reivindicados com passeatas.  Eles não respondiam apenas pelo terceiro grande meio de vendas de livros do país, mas pelo incentivo ao consumo de cultura, pelo bem que causavam aos aflitos. Não havia como resistir ao vendedor e seu livro. Era preciso comprá-lo. Sua erudição era de deixar qualquer grande leitor no chinelo. Servia como espelho. Eles realmente cultuavam o objeto livro, cheiravam-no com apreço, lustravam-no para durarem muito mais, faziam tudo o que muitos atualmente fazem com os tablets e que esquecem de fazer com um livro.
Ah, os bons tempos de antigamente são insubstituíveis. Não que os de hoje sejam ruins, mas algumas coisas marcam a gente. Atualmente, por exemplo, os tablets marcaram a nova geração, mas acabaram de vez com esse contato pessoal. Chego a imaginar, na loucura moderna, o estranhamento de alguns vendedores frente ao aparelho, inclusive o diálogo com um desses jovens “superinternéticos”.
– E esse é o último lançamento do Jô…
– Mas eu tenho aqui, ó (mostrando o tablet luminoso).
– O que é isso?
– Meu livro.
– Mas e a capa? Brilha assim mesmo?
– Não, é essa aqui (mostrando um PDF).
– Mas deve ser muito caro. Com esse dinheiro você compra dez livros comigo.
– Que nada. Tenho 50 títulos aqui dentro.
– …! Deixa eu cheirá-lo?
– Claro
– Shuif, shuif. Nossa, tem cheio de queimado.
– Claro, é um compu…
– Como você coloca na prateleira?
– Não posso, é um…
– E a biblioteca?
– Tá aqui dentro do compu…
– Muito sem graça. E ele faz um barulho estranho.
– É que recebi um e-mail.
– Mas isso é um livro?
– É um compu…
– Ele faz café? Tem uma água se mexendo, olha. Posso tomar um gole?
– Isso é um protetor de tela. Igual ao compu…
– Eles inventam cada coisa, né? Parece até um computador!
– Mas eu estava justamente…
– Então, esse livro fala sobre um homem que…
– Tá, me dá que eu compro.
– Viu, muito melhor segurar um livro de verdade. Só não sei como você consegue colocar ele aí dentro dessa caixinha. Coloca para eu ver?
– Mas eu não coloco esse, eu baixo e…
– Coloca ele no chão?
– É baixar, download. Quer saber, tchau.
Com isso, os vendedores que restam continuariam, mas vencendo pelo cansaço.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Reticências



Arte de Angel Estevez


Ah, o tempo, o que falar sobre o tempo enquanto ainda o temos? Ele é belo e triste na imensidão restrita de um relógio. Não possui reticências, vai chegando sem avisar como onda que assenta grãos de areia, como se moldasse mármore, repletos de marcas dos que pisam. Incontestável, não está aí para o canto dos pássaros ou a jovialidade do mocinho. Quando bem entende, ceifa os desejos até então escondidos por trás das tentativas de perenidade.

Que fique claro para o leitor que o tempo citado era o de antigamente, ou como acredito, com perdão do tom, como era para mim. O nosso tempo, moderno, dinâmico, televisivo e tecnológico, parece gostar de postergar um pouco mais as coisas. É meio preguiçoso. O de hoje, ao contrário, nos dá mais tempo para tudo: amor, velhice, sonhos e futilidades. É nítida a diferença entre esses tempos – principalmente quando comparamos as fotografias atuais com as antigas e vemos que parecemos mais eternos nas atuais.

Essa semana, por exemplo, olhei uma foto de quando tinha dezoito anos. Cara limpa, espinhas, topete, e tudo o que uma foto dessas pode conter. Não era tão recente assim, mas moderna em relação aos meus antepassados. Meu pai então nem se fala, forte, abrupto, com a vida inteira pela frente. Ah, a eternidade. O tempo tinha essa coisa de nos fazer enlouquecer pensando que duraríamos para sempre.

Já as fotos de antigamente, e coloque aí séculos sem fim, eram menos promissoras de longevidade. Descobri isso pesquisando uma foto de Mark Twain em seus dezesseis ou vinte anos, não lembro ao certo. O tempo de antigamente era mais voraz na sua emancipação mortal. Com apenas dezesseis anos, Twain parecia ter lá seus trinta ou trinta e cinco. Cabelos oblíquos, bigodes avantajados, as marcas das ondas no rosto. Não, não podia ser. Como aparentava ser tão mais velho do que realmente era? Foi então que descobri que o tempo de antigamente não conversava, baixava seu cajado sem pudor. E sabe por quê? Não notava a despreocupação de nossas atuais fotos. Com isso açoitava a vida dos sérios. Podem conferir. Todos posavam para as fotos com uma sisudez de quadros em preto e branco sem espaço para reticências. Nem um pequeno sorriso. Aí vinha o tempo, olhava aquele rosto marcado com um grande ponto final, e fazia seu trabalho.

E assim foi com as demais que encontrava. Nietzsche, Freud, Einstein, todos aparentavam seus trinta ou quarenta quando tinham apenas vinte ou menos. Perguntei-me se fora excesso de preocupação. Talvez. Hoje nos esforçamos muito mais para não nos preocuparmos, levamos a vida na ponta dos dedos. Podemos esticar nosso corpo numa rede e balançamos à favor do vento sem pensar em nada. Antigamente, todos sofriam sem realmente sofrer, e olha que nem possuíam nossos males modernos: televisão, computador. Não havia motivo para serem amassados por algo que hoje nos dá uma colher de chá, o tempo.

Fico olhando minhas fotos e vendo o quão sortudo sou (somos). O tempo não nos deu suas mãos ásperas, mas espera lentamente para que concluamos algum desejo, mesmo os mais absurdos. Ou talvez sejamos menos intelectuais e isso possa ajudar bastante. Quem sabe o tempo de antigamente pegava severamente todos os grandes pensadores justamente por eles se preocuparem demais com ele? Não sei, não sei. O que sei é que meu pai sorri numa foto antiga, meu cachorro brinca eternamente com seu osso, ainda tenho muita reticência pela frente e trocaria qualquer emancipação intelectual pela feracidade da juventude.

domingo, 6 de novembro de 2011

As fantasias nossas de cada dia


Pintura de Picasso

É engraçado como os leitores de crônicas podem ser sugestivos com suas palavras. Se pensarmos bem, leitores de crônicas são mais cronistas que os próprios escritores. Eles pegam o texto, desmembram-no, fazem uma crítica e reconstroem tudo como um novo texto, fresquinho, com gosto de notícia atual.

Só que aí vem o cronista, fofoqueiro de plantão, e abocanha aquele pedaço de pensamento, ilusão que não é sua e passa a servir como mote para um novo texto sem que seu real dono saiba sequer que aquelas linhas saíram de algo que ele proclamou como verdadeiro.

Pois é assim, roubando, no bom sentido da palavra, que começo esta crônica, advinda de um comentário feliz que tive o prazer de ler.
Ele, o verdadeiro cronista, é um amigo de letras há tempos. Sempre florido com seus comentários sobre meus textos, gracioso por não refutar minhas ideias, serve agora de impulso, tudo por um pequeno comentário que, na verdade, é de um terceiro, ou melhor, do grande músico João Bosco.

Que me desculpe esse meu amigo, mas roubo-lhe descaradamente a ideia pomposa de sua recordação e comentário: "custei a compreender que fantasia é um troço que o cara tira no carnaval e usa nos outros dias, por toda a vida”.

Carnaval à parte, pois não sou muito festeiro, o que meu amigo e o grande músico comentam é justamente o que impulsiona nossa vida. Para quem não entendeu fica a explicação: no carnaval podemos ser realmente quem somos. O resto do ano passamos fingindo ser algo para que o sistema nos aceite e possamos andar por aí sem sermos notado.

Pensando assim posso entender o porquê de muitas pessoas andarem descontentes ultimamente. Há um grande descontentamento pairando sobre muitos, não? O salário não está bom, o estudo vai mal, o amor é um grande problema, as greves, as escolas, a vida. E eles aguardam todos os anos a chegada do carnaval para tirarem essa fantasia de homem em progresso e serem realmente quem são, ou seja, leves.

Somos felizes por natureza, mas a posição e o status social que buscamos pede-nos uma seriedade muito maior do que a suportada. Somos fanfarrões, brincalhões, foliões por essência. Não gostamos da tristeza, mas somos obrigados a engoli-la para posarmos para a foto. Sendo assim, nada melhor do que comprar máscaras para viver essa vida irreal que temos.

Não estou sendo radical: vivemos uma vida irreal, sim. Quantos de nós seguram o riso perante uma coisa engraçada para não mostrar falta de seriedade? Quantos de nós se agarram a conceitos com medo de sermos nós mesmos e levarmos um tapa da vida? Quantos de nós desistiram de um amor com medo do ridículo? Por que não somos como as crianças e deixamos tudo para lá numa brincadeira eterna? Porque somos obrigados a levar uma vida onde sonhos não se encaixam.

O cara do balcão, com gravata e terno, é muito mais engraçado do que pensamos. O professor é muito menos sábio do que parece, e isso é justamente toda a sabedoria do mundo: não ser excepcional. Somos essencialmente alegres, mas escondemos isso pois achamos que felicidade excessiva é prejudicial para a vida.

Aí esperamos o carnaval, dia em que tiramos tudo do corpo e vamos com a alma para a pista. Dançamos até o outro dia, inflamo-nos com amizades e esquecemos nossas máscaras frias em casa. Beijamos o outro, praticamos o amor, pulamos até dizer chega como se o carnaval fosse um motim, uma rebelião. E realmente é. O carnaval é a rebelião que tentamos conter mas precisa ser libertada. O problema é que não podemos viver num eterno carnaval. E se, por um acaso, o vivêssemos internamente?

Depois os dias comuns voltam e nos embolamos com guarda-chuvas, ônibus e cenas. Vivemos o teatro nosso de cada dia e pensamos, dormimos, acordamos como se nada houvesse acontecido.

E os cronistas, fofoqueiros eternos, espreitam todos os dias esses pequenos homens felizes a espera de lhes roubar alguma felicidade para que ela entre no texto e ele seja um pouco mais leve como de costume.

domingo, 2 de outubro de 2011

Amor é coisa de velho

Arte de Modigliani

Passei a enxergar os relacionamentos com outros olhos de uns tempos para cá. A analisá-los por outra ótica só para notar diferenças e me atualizar nas questões amorosas. Que isso não seja motivo para eu ser ser chamado de volúvel ou influenciável, longe de mim. Ainda acho o amor uma das coisas mais emocionantes e importantes do mundo (e, como diria Wilde, mais misterioso que a morte). Propositalmente incompreensível, sim, mas de fácil aceitação quando você não entra em convenções superficiais.


Embora muitos afirmem que vivemos em uma época de velocidades – internet, convergência de comunicação, tempo – sexo e troca de parceiros inclusive – não gostaria de assumir como verdadeira essa teoria de que todos são inconstantes a ponto de estarem com alguém apenas pelo simples fato de terem uma companhia para os fins de semana. Ou pelo menos esperava não encontrar alguém para confirmar tal pensamento, fato esse que aconteceu para o meu espanto. Conversando com um dos meus amigos sobre seus relacionamentos, tive a impressão de que sou um cara a moda antiga, velho, preso em busca do tempo perdido.

Quase sempre gosto de uma conversa do tipo análise psicológica sobre o amor, qualquer que seja; expor minhas opiniões um tanto particulares e ouvir outras radicais que me deixam perplexo. Mas o último diálogo sobre o tema deixou-me extremamente assustado. Com ele pressenti que estamos realmente vivendo como em um Blade Runner onde não há espaço para sentimentos, frivolidades a dois, dores de cotovelo ou paixões desesperadas, apenas para a selva que nos engole enquanto nos colocamos atrás de computadores, teclando e contando sem olhar para coisas mais interessantes que a mecânica diária. Ou quem sabe meu amigo estava meio aéreo.

O diálogo foi curto em virtude do meu assombro.

— Ela é bonita e tal. Mas quero que seja mais imponente.

— Como assim?

— Antes de apresentá-la para alguém faço a vistoria. Se alguma coisa não servir, mando trocar.

— Mas e os princípios?

— Que princípios? E minha reputação? Preciso me precaver.

— Mas se você a ama, sente algo, não liga para...

— Isso é outra história, que não é bem assim. E quem falou em amor? Amor é coisa de velho.

Infelizmente, tenho que dizer isso, não afirmando por um fio de esperança que passa por mim, mas vivemos em um mundo cheio de robôs disfarçados de gente, que prometem mundos e fundos e sequer recordarão o aniversário ou as bodas. O típico homem atual (e por que não a mulher atual?) está preocupado em fazer pose na roda de amigos a ter um amor enlouquecedor como o de Manuel Bandeira pelas suas mulheres ou como o do grande Cyrano de Bergerac, que preferiu esconder sua dor pela felicidade de sua jamais alcançada dama. Preocupa-se com aparências quando deveria não estar nem aí para como ela come à mesa ou como se comporta em uma festa mais chique. Elegante não é ter que dividir sonhos ou situações embaraçosas quando um olha para outro, cúmplices, mas escapar de falhas ou gafes para que tudo continue bem no fingimento ficcional, que acaba quando, na cama, viram para a parede ou a deixam na porta de casa com um beijo seco. O conto termina e tudo volta ao que era antes. Se não houve sintonia, descartam um ao outro como se houvessem lixeiras ecológicas em cada esquina: “mulheres de plástico ”, “mulheres de vidro”, e assim segue.

Amor é coisa de velho, de quem já passou pela vida e não sabe sequer utilizar a seu favor o que a modernidade tem de melhor: o descarte instantâneo.

Amar é difícil, eu sei. Sentimos, contrariando Camões, uma dor profunda. Não queremos nos entregar a esse sofrimento homérico. Mas o mundo é muito mais triste se olhado sozinho, por um único ângulo. Quantas funções novas encontramos para uma árvore, pedra ou para o entardecer sozinhos? Não vamos além de nossa capacidade solitária. A solidão é coisa de velho?

Peço que todos revisem seus conceitos. Amar vale a pena. Não é preciso se atolar entre papeis e calculadoras tão frias e metódicas nem disfarçar o medo do novo ou comprar parceiros na liquidação do shopping. Se até mesmo o Windows tornou-se sentimental (quando apertamos algo que não o agrada ele reclama através de uma telinha com mensagens) o que dizer de nós? Continuaremos nos escondendo para não assumirmos que, sim, somos frágeis, choramos como bebês ao vermos uma novela ou quando rejeitados? Pense bem no que estamos perdendo, uma vida inteira de experiências.

Sejamos menos temerosos e mais esperançosos. Os relacionamentos ainda tem algo de orgânico. E, por favor, esqueçam os disfarces em casa. Debulhem-se quando for necessário. Só não cumpram o papel irresistível de sonharem com um príncipe encantado (ou princesa). A modernidade ainda não foi tão longe assim. 

sábado, 6 de agosto de 2011

Eu hoje fiz uma regressão

                                                                                           Arte de Monet

Hoje fiz uma regressão. Que fique claro: não foi uma TPV, Terapia de Vidas Passadas, tão comum atualmente. Foi uma regressão, digamos, subjetiva e memorialista, dessas que deixam a alma repleta de suspiros e a cabeça meio ensolarada.



Passando frente a um antigo boteco do centro do Rio, voltei aos meus dez anos de idade. A visão de um boteco é uma das lembranças de minha infância. Os “pés de cana”, cambaleando como se ritmassem passos de um rock moderno, não são as principais figuras da história, embora também façam parte da moldura. Falo de coisas mais universais como o caldo de cana, os chouriços e os ovos cor-de-rosa que fazem a estufa de vidro sob o balcão lacrimejar e eram severamente proibidas para as crianças.

Faz tempo que não vejo tais objetos históricos de minha infância. Fui obrigado à esquecê-los. Quando porventura entrava em algum boteco na esquina de minha saudosa rua, a fim de comprar pastéis, sentia-me encantado com aqueles ovos rosas e azuis e com os salames descomunais pintados de negro. Não tinha pastel que retirasse a vontade de morder um chouriço ou ovo rosa, porém as reclamações de minha mãe, que dizia serem pesados para crianças, eram intransponíveis.

Cresci lembrando de esquecer meus desejos. Até essa semana. Como pode um simples bar reanimar a alma infantil de um ser? Até mesmo o caldo de cana, insuportável ao meu paladar de garoto encantado com os chouriços, conseguiu reviver os dias em que passava com meu avô na pastelaria perto de casa. Hoje o caldo tem um gosto diferente, não o repudio mais. Há um sabor de lembrança que não existia. Naquela época, o máximo que sentia era um paladar de terra e açúcar.

Os chouriços nunca foram experimentados e me causavam um certo pânico que durou até hoje. Não sei quem disse, mas ainda acredito serem feitos de sangue de boi pisado e embalados numa coisa feia e viscosa. Isso me dava repulsa ao ver os beberrões se empanturrando, retirando vários às palitadas. Pensava no boi e naquele sangue e corria com medo. Coisas de criança.

Mas de tudo que compõe a moldura empoeirada da lembrança, jamais esqueci os ovos cor-de-rosa. Eles tinham um mistério grego na sua composição. Ao chegar em um boteco, a primeira coisa que pensava era no ser mitológico do tamanho de uma avestruz, rosa e azul, que punha aqueles ovos modernos. Quase cheguei a comprar um só para aguardar e ver o que sairia de dentro dele. Novamente o desbravamento foi impossibilitado pela minha protetora.

Como todo mistério acaba, os ovos foram desmistificados quebrando os mistérios em torno do balcão. De tanta curiosidade, meu pai conseguiu um corante para bolos, colocou alguns ovos para cozinhar e despejou o líquido vermelho na água. Alguns minutos depois brotaram na panela os perfeitos e verdadeiros ovos rosas do suposto monstro mitológico. Meu desapontamento foi grande. Como poderia aquela coisa rica de mistérios ser simplesmente um truque dos humanos? O melhor que podia fazer era comê-los acreditando estar violando algum segredo antigo enquanto monstros azuis me espreitavam.

Essa semana eu fiz uma regressão. E não me espantei com os ovos ou com o bar, mas com a sensação que eles trouxeram. A coisa mais viva que senti daquele tempo foi o ser rosa a me espreitar, cuidando para que eu não roubasse seus ovos enquanto os homens, já imersos em suas bebidas, travavam uma grande discussão sobre futebol.